Meu Appoio
    Profissionais negras e negros conversando em um escritório iluminado pela luz alaranjada do fim de tarde
    Diversidade
    20 Nov 2025 14 min de leitura

    Racialidade no trabalho: os dados do Sul e o que a liderança pode fazer

    Escrevemos este texto de um lugar de privilégio, com sede em Santa Catarina — a região onde a população negra é minoria e onde é mais fácil não enxergar a desigualdade. Falar sobre ela é parte da nossa responsabilidade, não um gesto de data comemorativa.

    O 20 de novembro não é sobre celebração: é sobre conta aberta

    Nesta quinta-feira, 20 de novembro de 2025, o Dia da Consciência Negra foi marcado por atos, cortejos e debates em todo o país. Na Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, o monumento a Zumbi dos Palmares amanheceu cercado de manifestações populares, com empreendedoras apresentando o que chamam de economia preta — o movimento de fazer o capital circular dentro da comunidade negra, como registrou a Agência Brasil na cobertura do dia.

    Na mesma data, ativistas ouvidas pela agência pública foram diretas ao avaliar o cenário: apesar de avanços como as cotas raciais e a demarcação de territórios quilombolas, a igualdade racial segue distante, em um contexto de recrudescimento da violência racial e de discursos que negam o racismo. É essa a moldura em que qualquer empresa brasileira opera — inclusive a sua, inclusive a nossa.

    Escrevemos como uma equipe que ocupa um lugar de privilégio nesse debate. Não trazemos aqui a experiência de quem vive o racismo na pele; trazemos o compromisso de usar dados públicos, linguagem responsável e método de gestão para apoiar lideranças que querem construir uma cultura de combate à discriminação. E queremos fazer isso especialmente onde é mais confortável fingir que o assunto não existe: no Sul do Brasil.

    IBGE — PNAD Contínua, 2º trimestre de 2025

    56,4%

    da população brasileira se declarava preta ou parda — mais de 120 milhões de pessoas.

    27%

    é a fatia da população que se declara negra na região Sul: maioria no país, minoria aqui.

    25%

    é o quanto a renda de trabalhadores negros com ensino superior no Sul (R$ 5.208) fica abaixo da dos não negros com a mesma formação (R$ 6.940).

    O Sul do Brasil tem um problema que prefere não nomear

    EstadoPopulação que se declara negraInformalidade entre pessoas negras
    Paraná35,2%31% das mulheres e 30% dos homens negros na informalidade
    Santa Catarina22,4%21% das pessoas negras ocupadas na informalidade
    Rio Grande do Sul21,6%30% das mulheres e 29% dos homens negros na informalidade

    Fonte: IBGE, PNAD Contínua referente ao 2º trimestre de 2025.

    Os mesmos dados mostram que 21% da população negra ocupada no Sul recebia até um salário mínimo. E o diploma não neutraliza a diferença: com ensino superior completo, a distância de renda permanece em um quarto do salário. Ou seja, o argumento de que "é uma questão de qualificação" não se sustenta diante do próprio número.

    Em novembro de 2025, o IBGE divulgou ainda os dados do terceiro trimestre: a taxa de desocupação do país foi de 5,6%, a menor da série iniciada em 2012, mas com diferença clara por cor ou raça — 4,4% entre pessoas brancas, 6,3% entre pardas e 6,9% entre pretas. Santa Catarina registrou a menor desocupação do Brasil, 2,3%. Pleno emprego e desigualdade racial convivem sem constrangimento: é possível ter o melhor indicador do país e, ainda assim, ter as piores portas de entrada para uma parte da população.

    Mentoria de Autoliderança

    Quem quer mudar a cultura precisa primeiro revisar as próprias decisões

    Enfrentar discriminação no trabalho exige que a liderança sustente conversas desconfortáveis sem se defender e sem paralisar. Na Mentoria de Autoliderança da Meu Appoio, quem conduz equipes desenvolve autoconhecimento, regulação emocional e método para conversas difíceis — com acompanhamento e indicadores para apresentar à diretoria.

    Mulher negra conduzindo uma reunião de trabalho com colegas negros e brancos em sala iluminada por luz natural em tons violeta

    Pertencimento não se declara em campanha: se percebe na rotina

    Pertencer é poder discordar sem virar exceção, errar sem representar um grupo inteiro e ser lembrado quando surge uma oportunidade boa.

    Quando isso não acontece, o efeito é medido em saúde: vigilância constante, cansaço acumulado e silêncio diante de situações que deveriam ser reportadas. É trabalho invisível que não aparece em nenhuma meta.

    Como abordar racismo no trabalho sem transformar a pauta em evento anual

    Quatro decisões de gestão que produzem efeito verificável em até um ano.

    1

    Medir antes de afirmar

    Coletar autodeclaração de cor ou raça com finalidade explícita, sigilo garantido e devolutiva pública dos números. Sem dado, o debate vira opinião — e opinião costuma favorecer quem já está confortável.

    2

    Olhar o funil inteiro

    Candidaturas, entrevistas, aprovações, promoções e desligamentos. A perda quase nunca está só na entrada: ela se acumula em cada etapa em que "perfil" substitui critério.

    3

    Escrever critérios de promoção

    Quando o critério é subjetivo, a semelhança com quem decide vira vantagem silenciosa. Critério escrito e revisado em comitê reduz esse efeito.

    4

    Tratar racismo como risco psicossocial

    A NR-1 exige gerenciar fatores do trabalho que adoecem. Assédio moral com recorte racial é um deles, e precisa de canal, apuração e consequência.

    O que costuma ser dito — e o que a liderança pode dizer no lugar

    Frases comuns em reuniões, e a resposta que sustenta uma cultura de combate à discriminação.

    "Aqui todo mundo é tratado igual."

    Tratar igual quem parte de pontos diferentes mantém a diferença. Pergunte o que a pessoa tem enfrentado antes de concluir que está tudo bem.

    "Foi só uma brincadeira."

    Nomeie o efeito, não a intenção: "esse comentário atinge uma pessoa do time e não vai se repetir aqui."

    "Ela é sensível demais."

    Se o relato incomoda, o problema é o que foi relatado. Registre, apure e volte com resposta em prazo definido.

    "Não encontramos pessoas negras qualificadas."

    Revise onde você anuncia, quem indica e quais requisitos são de fato necessários. A escassez costuma estar no canal, não nas pessoas.

    O que medir para não depender de percepção

    Quatro indicadores simples, revisados a cada trimestre, dizem mais sobre a cultura do que qualquer pesquisa de clima com pergunta genérica.

    Representatividade por nível

    Percentual de pessoas negras na base, na liderança intermediária e na diretoria — separados, nunca em número único.

    Permanência comparada

    Tempo médio de casa e taxa de saída voluntária por recorte racial. Diferença grande é sinal de clima, não de perfil.

    Salário na mesma função

    Comparação de faixa salarial dentro de cargos equivalentes, controlando tempo de casa.

    Relatos e desfecho

    Quantos casos foram registrados, quantos foram apurados e em quanto tempo houve resposta.

    Checklist dos próximos 90 dias

    Um plano que cabe em um trimestre

    • Publicar o recorte de cor ou raça por nível hierárquico, com data e responsável
    • Definir uma meta de representatividade para liderança com prazo e acompanhamento trimestral
    • Revisar descrições de vaga e requisitos que excluem sem necessidade real
    • Criar canal de denúncia com apuração independente e retorno formal ao denunciante
    • Incluir racismo e assédio no inventário de riscos psicossociais do PGR
    • Formar lideranças para conduzir conversas sobre discriminação sem transferir o peso à pessoa atingida
    • Contratar fornecedores e especialistas negros, movimentando o orçamento e não só o discurso

    Onde a Meu Appoio se coloca nessa conversa

    Somos uma empresa sediada no Sul, em um estado onde 22,4% da população se declara negra e onde a desigualdade convive com o melhor indicador de emprego do país. Reconhecer o privilégio de escrever daqui não é formalidade: é o que nos obriga a trazer dados públicos, a citar fontes verificáveis e a não ocupar o lugar de fala de quem vive o problema.

    O que oferecemos é o que sabemos fazer: método de diagnóstico, indicadores por setor, formação de lideranças e appoio individual com profissionais qualificados. Racismo no trabalho é também um fator psicossocial de risco, e a NR-1 já pede que fatores assim sejam identificados, registrados e gerenciados. Tratar o tema com o mesmo rigor de qualquer outro risco é o mínimo — e é o começo.

    Se você lidera uma equipe e quer construir essa postura, comece pelo dado que sua empresa ainda não tem. Depois, escolha uma decisão que possa ser diferente já no próximo processo seletivo, na próxima promoção, na próxima reunião em que uma piada aparecer. Cultura muda por acúmulo de decisões pequenas, tomadas em público.

    Fontes consultadas

    • IBGE — PNAD Contínua, 2º trimestre de 2025 (população, renda e informalidade por cor ou raça na região Sul).
    • IBGE — PNAD Contínua Trimestral, 3º trimestre de 2025, divulgada em 14/11/2025 (taxas de desocupação por cor ou raça e por unidade da federação).
    • Agência Brasil — coberturas de 20/11/2025 sobre o Dia da Consciência Negra e as avaliações de ativistas do movimento negro.